Sobre brigas familiares (familhares)
a coceira vem
como porta de um mal
com pensamentos de kamikaze
mergulhando num pote de tinta azul
numa ponte
em Londres
ou pa
ris

como um anel de casamento
já que não existe sorte
e a liberdade voa pra longe
rindo de escárnio
como uma canção
do trovão
trovadorismo

e os flocos de luz
vão dissipando-se com a luz que orienta
de um cigarro aceso com um isqueiro quebrado
ao sol do sol lá mi dó ré si dó-dó
a moça pede um café
sem conclusões
liga pro marido pra avisar que vai demorar
só pelo prazer do ciúmes
tomando seu cappuccino sozinha num bar
que nem cappuccino deveria servir

e o chocolate fica intocado
no canto da xícara suja
o homem moderno deveria ser civilizado
e não astuto.
Estudo profundo e simplório sobre anatomia felina
E venha ao gato o prato
Ao rato sobra o mato
Ensopa-lhes o pesar
De vida transpirar

À moça, dê um lenço
Desafio suspenso
Das flores no jardim
Molhadas nesse ínterim

De você, o cigarro
Da morte, o pigarro
Há ratos no chinelo
Há urina no castelo

E o gato é astuto
Com seu miado bruto
Da vida, resta a caça
Do rato, a carcaça. 
Da primeira letra do (meu) alfabeto
A sua voz recheada por farpas:
A mais macia toca de coelho.
Você ao som de violinos ou harpas
E frases que torciam o joelho.
Sem cair, é óbvio. Não cairiam
Não, ah, não, nunca com você por perto.
E as vozes nunca responderiam:
Isto é certo? É certo? Isto é certo?

Você cantou durante a noite fria
A música que eu tirei no violão
E eu coloquei minha saudade em dia
Porém não deixei que caísse, não
E minhas rimas que são tão, tão pobres
Desfaleciam-se dentro da pele
Com veias, artérias e órgãos nobres
Mas sem você, como eu sem a L.

Você cantou, ah sim, com a voz bela.
E eu consegui esquecer, num instante
Que não era para mim, e sim pra ela.
Porém depois, veio a dor, petulante.
Da beleza que eu tentei em vão te mostrar
não me dê seu silêncio
porque machuca a mim
o jeito com que eu
fujo do medo seu
medo [meu], medo assim
meu medo que eu não venço

não me dê sua camisa
porque ficaria enorme
em mim, sou muito pequena
mas grande pra fazer cena
de dor, ou cena de fome
(pois amigo é quem avisa)

hoje na rua, alguém chamou
a mim procurando você
alguém achou que você era
eu. e nós dois na mesma esfera
faríamos um estrago de
doer. por isso alguém achou

bem no meio da rua de flores...
alguém pediu-me meus telefones
só que foi pra ligar pro seu número
e eu num momento um pouco efêmero
por raiva chutei um desses cones
pra castigar alguém pelas dores

que ganhei. não estou dizendo pra
você voltar. minuciosamente peço,
apenas, peço pra você tecer
nossa história sempre que você ver,
em um esses dias comuns que meço,
uma noiva subir grata ao altar

e digo, não é por medo, dessa vez
eu te juro que é mais por nostalgia
(e dizem que quem avisa amigo é...)
só quero te ver pulando num só pé
sem equilíbrio por alguém, qualquer dia
uma que possa te fazer feliz, talvez

sem inveja ou ciúmes
eu, com esforço, não pude,
mas espero que alguém complete
que ela encha de alegria seu set
que, por ela, cê perca o norte, mude
e, por favor, mostre a ela a beleza dos cumes.
Onde nascem milhares de ecossistemas
Foi a primeira vez em que a areia beijou o mar.

Chegava a ser chamado de irônico o modo em que corria o nosso amor. Eu, era água. Clara, fria, profunda. De olhos azuis. Como o mar. Meu amor, era cínico. Discutia com a chuva o tempo inteiro. Mal sabia ele que o desfoque em que a chuva o deixara, refletia nas pequenas e infinitas gotas de mim.

Meu amor era areia. Éramos o que chamava-se de própria intriga. Queríamos sempre competir, ou quem amava mais, ou quem era maior. O real e o abstrato. Eu sentia as pequenas embarcações produzirem cócegas em meu lombo. Sentia a areia quente, tentando me sustentar, ao mesmo tempo em que abrigava milhares de pés o pisoteando. Erámos dois extremos. Eu não o suportava, por ter de sempre ser minha base em quaisquer que fosse meus deveres e necesssidades. E ele me odiava por ter de me proteger sem qualquer desejo de fazê-lo.

As diferenças eram sublimemente bonitas, mas isso eu nunca admitiria. Eu sentia seus grãos beijarem-me o corpo: os pés, os braços, as costas... O corpo inteiro, porque eu nunca fui concreta. Como a água, era espalhada, transformando-me em qualquer situação. Eu era moldável. Adaptável. Já ele, ah, ele...
A areia precisa da água pra se moldar, como ele precisava de mim para encontrar o seu lugar nesse mundo. A areia pura, fina, não fica de pé de jeito nenhum. Seu lugar é no chão, a ser pisoteada, sem reclamar. Sempre plana. Sempre indiscutível. E eu, quando fundia-me com ele, deixava-o bonito, e as crianças vinham em nós e moldavam sonhos como castelos de areia. Era bonito ser praia. Mar e areia, praia.
E o nosso resultado era mais bonito ainda de se ver. Além de castelos, príncipes e princesas, túneis de areia e baldes d’água, éramos sorrisos. Sorrisos jovens, de crianças contentes em ver este amor, que antes, era negado pelos dois sujeitos.

A areia, sem o mar, nada é, senão areia. E o mar, sem a areia, não forma praia. Assim como eu e meu amor. Sem ele, eu não sou como o mar. E ele sem mim, não é areia.

 E aquela foi a primeira vez que a areia beijou o mar.

Mas, como dois amantes, veio a chuva. E a areia toda se encharcou, perdeu forma. Virou poça. Areia e água, mas aquele líquido não era o meu, tão salgado. Era doce, mas era extremamente amargo, fim de uma união tão agradável. Eu me agitei, como faz o mar em tormenta, contrariando vontades de mil marinheiros. Fiz ondas, tentei fazê-lo ficar, matei peixes, fiz de tudo. Mas não adianta. O que é tão diferente assim, sempre tem um final. E restou-me aceitar. A calmaria há de vir, se a tempestade passar.

Porém, mesmo assim, em todo o final de história, não é o verdadeiro fim. Ainda há praia. Ainda há ele lambendo meus pés, ao menos em minha memória. Talvez ele não saiba, mas somos berçário de tartarugas. Mesmo longe um do outro. Elas vêm, vivem em mim, mas nascem nele. Como nosso amor. Começou em mim, nasceu nele, floresceu, brotou, e morreu. Mas tenho certeza que ainda há praia. Mesmo que ninguém mais faça a água e a terra se misturarem. Mesmo que ninguém faça-nos homogêneos. Nunca fomos um só, e, por isso acabou. Mas somos visitados por milhares de turistas, e há de ser assim. Há de haver vida em nós. Eu sei que é assim que deve ser, porque a maré continua subindo e descendo.

Como ondas, de nostalgia, talvez. De desconfiança. Desconfiança em si, por não saber se ainda há amor. Ou será apenas lembranças? Saudades?  O tempo nunca diz. Porque o amor é como um esconde-esconde. Ele foge, mas um dia, há de ser achado.
Com uma ajuda de alguém inanimado
é como continuar sentindo seu cheiro
como provar que esse cheiro é o seu?
é seu porque é cheiro de falta...
é cheiro daquele açougue no final da rua onde os garotos e as garotas veem uns aos outros comer.
Você sabe do que falo.

é como cadáveres de gatos que eu não conheço
e que não são o meu, nem o seu
mas é como se se chamassem pelo mesmo nome
é como destacar importância por letras maiúsculas, coisas que só você entenderia

é como... não sei, é como ser
é como não colocar pontos finais pra você ficar
e tocar piano como se as músicas fossem minhas
e sentir as notas
e sentir a vida
e sentir as ondas
ondasssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss com muitos s
porque eu sei que você gostaria de falar assim

Tem algo mais que você gostaria
sem ser ondas?
não sei
talvez eu
mas eu nem sei
se você
é minha ainda.
ponto.
ponto.
três pontos são reticências.
mas e quando não quero mais nenhum?

é o seu cheiro
e, acredite,
você não está sozinha.
 Porque, azul e dentro de mim e dentro das ondas... há você.
As Coisas Que Eu Gostaria de Falar Sobre Com a Olga
Falei com Olga hoje. Falei mentalmente e lhe contei sobre você. Ela não me escutou, porque não está escutando mesmo, e a culpa é todinha minha.

Agora estou aqui, sentada num café, ouvindo a lista de músicas que me lembra você. Cappuccino com muito açúcar, não é? Para acordar, despertar, ressuscitar. E eu fecho os olhos e sinto o nada passando por mim. Acho que nem sangue por dentro tem aqui. Cavamos um buraco, pequena. Cavamos e nos escodemos lá dentro, e os demônios lá de cima jogaram a terra por cima de nós. E agora estamos aqui: asfixiadas, sem saída. Presas num lugar que antes era nosso porto seguro. E como não seria mais?

Não entendo como estamos tão tristonhas ao estar juntas. O que sempre foi um motivo de sorrisos vai lentamente se dilacerando e sendo comido pelas pragas. Pragas que nunca dariam no nosso jardim, se dependesse de nós. Mas não depende. E deram. E ficaram. E comeram tudo. E agora nem toda a fertilidade do mundo conserta o que elas fizeram. Gafanhotos. E vespas...

Vespa, é isso. É uma picada de vespa. Inchada, enorme, doendo tanto que talvez fosse até melhor me levar ao hospital. Mas eu não vou, de teimosa, e peço para os outros me melarem de pomada para ver se sara logo. Mas eles têm nojo do machucado, da ferida, e do pus. Então me resta só pedir a você, mas você tem medo de me infectar com seus dedos sujos de passados. Então fico aqui, com a ferida, sem cura alguma, porque deixar tudo pra trás e pedir pra outro alguém cuidar eu não vou. Não mesmo... Não vou.

O que me rodeia é só você. Ontem fui àquela cafeteria semelhante à em que dividimos um croissant de chocolate, e pediram meu nome para anotarem meu pedido. Eu dei nome falso, como sempre costumava dar, e, sem perceber, foi o seu que saiu da minha boca. O nome nosso, da nossa filha (que não íamos ter). Ela seria bonita como Madu, aquela menina que joguei pra cima na presença da minha mãe, mas seria ruiva. E seria nossa, como aqueles animaizinhos que eu tão crente de mim planejei. E nós conseguiríamos conciliar ratos, e gatos, e peixes! Ai, ai, essa é a única exclamação que há de sair de mim no texto todo. Ando tão, tão sem emoção. Apática. Sem solo, sem sono.

A próxima vez que você colocar os olhos em mim, tenha a certeza que vou parecer distante.

As palavras vão se acumulando, mas só há um significado. Só um... E o que eu quero dizer é que preciso ser resgatada desse poço em que me encontro. E vou cada vez afundando mais, sem perceber, só tomando as escolhas erradas, porque meu corpo já não sabe mais o que é esquerda, o que é direta, muito menos o que é direito.

Preciso da sua mão aqui na minha mas hoje você não quis me ver. E tudo bem. Tudo bem – eu suspiro pra mim mesma – e dou o último gole no copo de bebida quente. Depois pago as contas, levanto e vou embora. Porque me ensinaram que é assim que se faz.
Sobre a Pianista que estralava os dedos
Queridíssima L.,

Como sempre, minha perna balança exasperadamente e meu pensamento se embola como meu cabelo assim que eu coloco o vocativo no canto esquerdo da página. Você, L., rouba-me todas as vontades que vêm a nascer assim que a lapiseira encontra o papel. Tudo bem, vou só fumar o meu cigarro e jogar em você as mágoas da fumaça que não é tão densa já que eu trago metade e só jogo para o mundo o resto.

Mas é um erro achar que desta vez venho falar de mim, ou ainda de você. Venho contar-lhe sobre uma moça que encontrei e que anda sorrindo meus dias. Ela é minha criança e eu sou a criança dela; mas isso, L., vou lhe contar depois. Agora me bastam uma introdução decente e uns contos pra explicar: como uma pulseira de miçangas, a qual cada uma tem um sentido peculiar e pessoal.

Vamos começar do começo, sim, L.?

Agora é outono e, você sabe, sempre gostei das cores que as folhas adquirem, tons pastéis e tons escuros, contradizendo-se. Na verdade, agora é primavera, e tudo anuncia que o que vem é um verão quente e bonito; porém, eu quero outono, então, L., é outono. E um outono daquelas que envolvem, outono de alma, outono de ser, outono de mim. E, não, não é triste! É tudo bonito nesse outono, L.! Você mal sabe, você não entende, você... Você é primaveril, florescendo nas pessoas e nos lugares como um brotinho de feijão que nasce no algodão. Mas, L., você há de entender que o outono é a estação mais bonita de todas.

Isso eu explico depois. Dito que é outono, falta-me fechar os olhos e sorrir, por ser outono e por não ser inverno.

(Acho que é bom deixar registrado aqui a pausa que eu fiz para fumar um cigarro. Você sempre se preocupou demais com a quantidade de nicotina que eu ingeria e de menos com os bens e as idéias que caem em meu peito junto à fumaça. Entenda, L., que fumo por fumar e por ser. Todos fazem alguma coisa pra justificar seu ser. Pois bem, eu escrevo cartas a você e fumo! Aceite isso, querida, por favor. Peço-lhe e tento lhe explicar, pois sei o quanto você é teimosa. Enfim, pausa para um cigarro).

O meu contentamento é evidente, agora que há em mim mais esperança que medo. Eu fecho os olhos e já saio dançando, como naquelas cenas que imaginamos juntas e que eu realizei com ela. Peço, por favor!, não tenha ciúmes, mas minhas danças e meus cigarros são mais bonitos com ela do que com você. Quiçá porque ela tem muito de você. Talvez por isso, ou talvez só por ela ser ela e fim. Tem coisas que são assim e são assim e ponto final, não adianta muito discutir nem nada. Tem coisas na vida que acontecem e nos deixam boquiabertas, eu e você, L. Mesmo você, que acha que já viu de tudo nesse mundo azulzinho. Ah, me deixa morar aqui, aqui que tudo que está certo, L. Aqui tudo está bem, você vê?

Então é só colocar uma música otimista e sorrir.

Apesar de eu já vir pedindo coisas demais, faço mais um pedido: por favor, não diga que não me reconhece mais agora que estou vestida com esses casacos de plumas e amores. Eu estou bem, enfim, não ótima, mas isso já seria pedir demais.

Mas, como eu disse, o objetivo dessa carta não é falar de mim, então encerro minha introdução por aqui.

Você conhece essa menina, pois tenho certeza que você já sambou pelo coração dela também, e ainda deve dançar muito por lá, ou pelo menos eu espero assim. Para o futuro, não resta dúvidas que haverá você, pois haverá nós, e... Bem, estou falando de você de novo.

Ela tem uma pinta perto do nariz, e, sempre que fecho meus olhos, é lá que me imagino morando. Isso não é muito importante, mas é nos detalhes que meu amor transborda, então acho que é válido contar-lhe essas pequenas coisas também. Ela faz tsurus para não parar de acreditar e me conta histórias bonitas. Eu beijo-lhe o rosto e o pescoço, e ela ri, porque tem cócegas. Dançamos no meio do parque e ela fica com vergonha quando grito na rua (e no fundo eu só faço porque gosto quando ela finge que está brava).

Ela é uma pianista, e vai tocando o mundo com os sons bonitos que saem dela. Ela é o piano também, e seus risos são em lá e sol... Ela é lindíssima. E ela me deixa toda com mania de superlativos, porque os comparativos não são mais suficientes. Não é mais o bastante pensar que ela é boa e melhor que a anterior. Ela é boníssima, belíssima. Ela é todos os adjetivos que consigo pensar e atribuir. Ela me dá vontade de pegar o dicionário e ir descobrindo novas palavras, porque ela me faz acreditar que existem novos significados para a vida.

Ela estrala os dedos, e isso a faz perder a agilidade e não conseguir alcançar algumas notas... Mas, tadinha! É um vício difícil de largar, esse, e eu entendo! Nunca a culpei por essa perda, e acho que serei injusta se algum dia o fizer. Ela tem medo, e isso é até bonito de longe, mas de perto me assusta. Assusta porque eu não entendo direito como funciona e acabo me perdendo. Mas eu vou lá e beijo-lhe os dedos tortos, porque eu acho que no fundo ela merece alguém que faça isso. Vou e beijo-lhe os calos, porque sei que é o que ela faria comigo.

E ela, L., ela faz meus calos parecerem coisa pequena e eu posso enfim tocar meu violão. Com as notas saindo meio tronchas, admito, nunca fui muito boa musicista. Mas eu sei que a gente ainda vai compor uma canção mais que bonita, eu e ela. Eu sei que ela me acompanha no piano e eu não paro de tocar nunca, se ela pedir.

E eu não ligo se existem pessoas que sabem tocar mais bonito e melhor que nós duas, porque eu sei o que a gente faz é diferente. A gente faz vida da música, e não o contrário.

Então, L., sempre que me ver sorrindo, já sabe o motivo.

Com  atenção e um cigarro a ser aceso,

Ninguém menos que eu.

P.S.: Perdão pela linguagem tão pobre, mas veja que há certa destreza nela também. Acho que ela me faz ver que as coisas simples são belas, no fundo. 
A Fantástica História do Pássaro Que Queria Ser Lesma (E Todos Vocês Deveriam Querer Também)
Quero começar essa história com “era uma vez”, mas o tempo (verbal) atual me força a dizer presente(s).  Os dedos estão cansados, mas escrevo mesmo assim. A unha curta demais, meus erros me consumindo, mas eu digito porque sei que unhas crescem, e corações também. Porque tudo na vida é curável, tudo se renova, tudo cresce e tudo morre. E esse é o maior mistério triste e bonito da vida, como ela sempre continua, apesar da dor, apesar de tudo. O caminho não acaba... O caminho só acaba quando a morte o interrompe, e, mesmo assim, a matéria renasce e o morto serve para dar vida aos átomos... Nada acaba.

Isso, entretanto, não tem muito a ver com o que vou lhes contar hoje, pelo menos não por ora. Falarei sobre o pássaro. O pássaro não sabe disso, embora o seu canto traduza a plena perfeição e leveza que o mundo é (às vezes). Não venho discordar dos poetas, não: o pássaro é belo e me inspira sentimentos tão gloriosos como orações sinceras. E seu vôo, e seu canto! Singular como nenhum outro animal; bonito, pequeno, tão... Tão meu. Quero tê-lo, quero abraça-lo e agarrá-lo para cuidar de suas asas que já devem estar cansadas... Entretanto ainda batem. Como um coração daquela menina que se iludiu, sempre se renovando. Assim são as asas do pássaro, assim é o pássaro. Abala-se, mas não se entrega.

Porém, o pássaro tem medo. Usa a leveza que tem para proteger-se. Ao ouvir o soar de passos, apavora-se. Logo pula para longe, pensando na dor que provavelmente é ser atingido por um daqueles sapatos tão egoístas e duros. O pássaro se esconde e sobe, num lugar onde ninguém sabe onde é (só outros pássaros). O pássaro canta para disfarçar a tristeza do seu próprio medo. Ele sabe que muitas das pessoas que passam por ele o acham encantador e querem afaga-lo, mas, por não saber distinguir as pessoas cruéis das que só querem seu bem, ele voa de todas, adiando e assassinando um futuro que poderia ser amável.

Há, também no chão, embora separados por várias espécies, a lesma.

A lesma não é muito bonita, se você analisar. Não inspira sentimentos poéticos, não é a musa de poemas. Não canta. Não encanta. Ela é singular, porém de forma negativa. Asquerosa, para uns. Frustrante, para outros. É banhada não com belas penas, e sim com aquele líquido meio transparente que inspira ojeriza... “Eca, Dona Lesma, a senhora poderia ser mais bonita!” dizia-lhe a formiga, que é trabalhadora, realista e sempre enxerga as características gerais dos outros animais.

A opinião da formiga não faz sentido para mim. Vejo, na lesma, a filosofia de vida mais peculiar que pode haver.

A lesma desliza, devagar. Vai traçando seu caminho numa linha torta, que ela tenta ao máximo enretar. Não foi feita para andar em linhas perfeitas, nota-se logo, mas ela tenta mesmo assim. E, com o tempo, quem sabe, vai conseguindo. Quiçá os rastros gosmentos deixados pela lesma nunca sejam retos, mas ela não desiste. Otimista que só!

A lesma sabe. A lesma sabe mais que os ratos, mais que a formiga, mais que os golfinhos. A lesma entende tão bem da vida! Ela entende e, por entender, faz. Fazendo, inspira em mim desejos também solares, de ser lesma... Mas eu não entendo, e talvez nunca vá entender.

A lesma tem medo, sim. Ela não quer que um daqueles sapatos, por pura crueldade, por acha-la inútil e feia, a machuquem, transformando-a em pura gosma remexida. Mas ela a vontade dela de andar em linha reta é maior. A ambição da lesma é fazer o bem. E ela faz! Por isso, a lesma não se mexe quando se aproximam dela. Seu pequeno coração acelera, em vezes ela até chega a se desesperar pensando na dor que virá, mas ela continua seguindo seu caminho-torto-torto-torto-quase-reto. Ela dá sua vida na mão de quem mais sabe, ora: a vida!

Não pense que a lesma é como os cachorros, fieis a seus deuses e os maiores seguidores do destino. Lesmas são tão céticas, ou mais, quanto corujas velhas e sábias. Mas as lemas simplesmente sabem que é errado deixar de arriscar por simples medo. Elas sabem que andar em linha reta, ou seja lá qual for o maior objetivo de uma lesma, é mais importante que o medo de ser pisado por um sapato.

Ninguém quer pisar numa lesma. A sujeira não fica inteira no chão, e sim se infiltra também pelos sapatos do “assassino”. E que nojo é ter uma lesma grudada em seu pé! Lesmas sabem que a vida não é boazinha com elas: deu-lhes essa aparência feia e mais quinhentos defeitos que não vale a pena mencionar. Porém, elas entendem que não se pode deixar ser engolido por esses males. Os males vêm para todos... Até para os mais azuis pássaros!

A lesma tem mais vontade de ser certa do que medo de errar. E isso, bem, isso já é meio caminho andado para um acerto.

(Viu, dona Formiga? Seja boazinha com sua amiga lesma da próxima vez!)
O incidente terrível das jujubas (Ou Descobrir-se Amando e Não Se Poder Ter)
Quando menor, desconhecia as utilidades esplêndidas das linhas do metrô. Meu pai, que se banhava na quentura de um amor incondicional à cidade cinzenta em que vivíamos, classificava como absurdo aquele minha falta de urbanidade. Levou-me ao minhocão — esse foi uma decepção, mas isto é história para outro dia —; ao centro de São Paulo; a uma rota de ônibus; e, por fim, à linha azul do metrô.


Os encantos foram instantâneos. Os bilhetes magnéticos eram bem mais interessantes que as moedas e notas ásperas infinitamente comuns, mesmo aos meus olhos pueris. As catracas assemelhavam-se às de um estádio de futebol, porém sem a vantagem de ter aqueles números grandes que esbarravam nos meus dentes como balbucios.

O metrô era irresistível.

Ao entrar no vagão, o deleite expandiu-se. O vento intruso pressionava as orelhas e lambia-me a face. Podíamos sentar, e assim jazíamos. Eu observava os rostos desfigurados, esquecidos e descaracterizados pelo cotidiano.

Era tudo regido pelo cinza sem deixar de ser extremamente agradável. Na minha ânsia e curiosidade infantil, nasceu minha condenação. Meio longe, mas ao meu alcance, constava uma moça com um pacote de jujubas.

Ela tinha a pele morena como o cabelo, preso, querendo escapar daquele elástico que me impedia de saber o comprimento exato dos fios. Olhos cansados e comprimidos, pequenos talvez, que se concentravam em algum ponto além da minha compreensão de criança — o nada.

Não me prolongarei muito sobre a mulher — minha memória falha e o mais importante constava em suas mãos: a embalagem que envolvia aqueles doces. As cores eram conhecidas, mas era sempre um deleite checar quantas de cada uma havia. Lembro até hoje da sequência: roxo, laranja, verde, vermelho, amarelo, roxo, roxo, amarelo, laranja. Verde.   Não que isso importe muito, também.

Encarei-a com olhinhos suplicantes. Meu pai, tão distraído em seu jornal, nem notou meu martírio: aquela mulher estava me devorando a cada jujuba que colocava na boca! Aquilo tudo era meu, e não dela. O ritmo com que seu maxilar vibrava me machucada. Ameacei chorar, mas não o fiz. Não sei bem por quê.

Ela chegou à bala vermelha: minha favorita. Uma lágrima invisível desceu da minha face, e eu realmente me senti molhada e desamparada. Aquela mulher estava, aos poucos, dilacerando minha infância, engolindo todos os meus sonhos. Onde já se viu adulto engolir assim uma criança? Aquelas jujubas eram minhas, o açúcar fino em cima delas me pertencia; se duvidar, até o plástico que a embalava deveria ser meu. E ela, ela estragou tudo! Esqueci também do prazer que era balançar as pernas enquanto o veículo em que estávamos se movia em alta velocidade. De repente não havia mais isso. Havia só eu e minha infância despedaçada.

Chegamos à estação Ana Rosa no justo momento em que ela colocava na boca a bala cuja cor correspondia à minha segunda favorita. Lancei-lhe um último olhar fulminante e torci para que ela tropeçasse e caísse, coisa que, na minha mente pueril, era o pior que poderia acontecer a alguém.

Não caiu. Não que eu saiba.

Meu pai notou logo meu constrangimento e perguntou-me o que havia. Eu, entretanto, não o contei. Sei porque escondi aquilo, era uma vergonha eu, em meus plenos sete anos, já não ser mais criança. O que Carlinhos, meu namoradinho de escola, diria quando soubesse que haviam arrancado de mim assim o que ele mais gostava em mim? E eu, sem infância, não poderia mais entrar no parquinho. Minha vida estava a-ca-ba-da.

Meu pai entendeu meu silêncio, como os pais bons fazem. Abraçou-me e, para me animar, me comprou, adivinhem, um pacote de jujubas.

Comi, meio a contragosto. Eu já não era mais criança, e adultos não comem jujuba do jeito incrível e deslumbrador que crianças fazem. Não havia nenhuma jujuba vermelha no pacote. Haviam roxas, porém, então perdoei o “fabricador”.

Mas nunca perdoei a mulher. E eu sei, ainda hoje, que nenhuma jujuba seria mais gostosa que aquela que ela engoliu, sem me oferecer, sem me salvar de ser, para sempre, uma criança com a infância quebrada. Pelo menos por um dia.
                           
P.S.: Carlinhos continuou gostando de mim: nem percebeu, eu acho. Eu continuei entrando no parquinho, também. Mas, desde aquele dia, eu sei que não sou mais a mesma. A minha inocência foi arrancada de mim e cuspida de novo, mas danificada: uma massa retorcida, colorida...

Assim como as jujubas depois de mastigar.
Soneto bobão com cara de melão
Quero me machucar por seu cabelo castanho
Também te contar sobre prata, ouro e estanho.
Chatear com minhas rimas de dois em dois
Só para poder lhe pedir mil desculpas depois.

Vem achar graça e se forçar num ato blasé
Mas promete não rir desse poema demodê.
Eu arrisco até cantar pra você em francês
Se a gente for plebeu e rir de todos os reis...

Reis bobões: não são como a gente
A gente que sabe amar, mesmo que repetente
Nessa coisa besta e complicada: a paixão.

Vem comigo, comigo deitar aqui no chão...
Eu arrumo todos os grampos do seu cabelo.
E, se quiser, te acompanho no show do Camelo.
Para a doce Mariana (que de Ana ainda não tem nada)
Abri o meu caderninho numa página qualquer. A lapiseira treme. Grafite zero-cinco, porque as outras fazem a letra ficar gorda e não cabe tudo na página do meu moleskine que é tão pequenininho. É assim, pequena, miudamente, é assim que eu vou falar de você. Ma-ri-ana.

Você tem um sorriso bonito e uns olhos castanhos que são tão diferentes dos meus! Como pode algo, assim ser da mesma cor, do mesmo formato, mas ser completamente diferente? Mari, quero lhe fazer um piquenique. E deitar em você. E deixar você me puxar para dentro, absorvendo-me como se eu fosse alguma droga que você nunca tinha experimentado. Comendo pão com geléia. Comendo doce de leite! Comendo brigadeiro e te sujando de nescau. É, nescau, porque não é a-cho-co-la-ta-do. Vê, se fosse com uma outra qualquer, seria achocolatado, mas é com você, minha doce doçura, então é nescau.

Tenho essa mania de te chamar das minhas comidas favoritas porque de algum modo eu quero que você entre pela minha laringe e que eu te devore... Quero digerir carinhosamente você, te mergulhar em ácido clorídrico e desfazer com minha bile todo esse medo que você tem da vida. Afogar-te em suco de morango porque minha sede de aventura nunca passa e eu estou sempre bebendo coisas gostosas. Ou ainda te lambuzar de chocolate. Mas só se eu puder te limpar depois, com uns beijos molhados, que podem ser babados (espero que você não tenha nojo de mim).

Ah, Mari. Eu quero te passar no pão e te guardar uma jóia. Exibir você no pescoço, como uma gargantilha, ou ainda como um colar para ficar mais perto dos pulmões. E respirar você... E sentar do seu lado no trem, enquanto você dorme porque está cansada, e te escrever um poema que não é metrificado e nem muito bonito, mas que é seu.

E essa prosinha, essa também é sua, embora meio melada de açúcar...

Sobre çapos
Sapo. Havia um sapo no jardim. Era pequeno, talvez fosse uma rã: não sei diferenciar. Ele me olhou, com aqueles olhos engraçados. Deveria estar computando o quão perigosa eu sou, imagino eu. Se eu soubesse, poderia dizê-lo, mas seria uma tarefa um tanto difícil e inadequada. Primeiro, eu acho que ele não entenderia essa linguagem complicada que nós, pessoas, criamos para dizer o indizível. Segundo, talvez ele tenha que descobrir sozinho. Venho chegando à conclusão que avisar as pessoas sobre nossas personalidades é um tanto quanto errado. Elas hão de explorar e descobrir isso por inteiro. Muitas vezes me enganei, querendo avisar, alertar que eu era um erro perdido, embrulhado em papel celofane e deixado no meio da estrada.

Adiantou? Desembrulharam mesmo assim. E descobriram, aos poucos, que eu estava certa. Depois bastou a mim novamente ser embalada num papel, floral e mais bonito, para enganar a próxima vítima. Bem, acho que me não devo mais avisar às pessoas que só meu embrulho é bonito.

Por isso não contei ao sapo. Deixei que ele pulasse e fizesse aquele barulhinho engraçado sem qualquer intervenção minha. Nem ao menos me mexi, continuei bem onde estava. Ele me fitou, uma fitada curta demais para mim mas decerto longa demais para um sapo, e se afastou. Pulou para longe. O motivo? Não sei. Talvez ele já tivesse me desembrulhado. Quiçá sapos sejam mais rápidos nisso do que humanos. Talvez ele tenha tido medo por sermos diferentes em demasia. Ou, ainda, pode ser se assustado por nossa insignificância ser exatamente a mesma. Somos iguais. Eu e o sapo.

Entrei novamente em casa e comi um pedaço de queijo derretido. Isso me lembrou o sapo, apesar de ele não ser rato. Ou talvez ele nem tenha saído da minha mente, de qualquer forma. Çapos são difíceis de esquecer, principalmente esses sapos com olhos de raio x que nos despem em uma coaxada.

Hoje eu quis começar uma palavra com cê cedilha. Não sei por que essa minha vontade de impossível surgiu. Vontade de ser livre, ser livro, ser eterna. De ser selvagem. A verdade é que sou humana, e isso é a coisa mais triste que pode haver para alguém que é igual e diferente de um sapo ao mesmo tempo. Sei que é impossível para mim voar, pelo menos nessa sociedade que não vê que ser humano não é melhor que não ser nada. Não é fácil ser alguém quando ninguém, nem mesmo eu, sabe a diferença entre um çapo e um sapo. Ainda bem que regras ortográficas são bem mais fáceis de quebrar
"I am, I am, I am".
era como pulos entrecortados
entre: cortados entre os lençóis
com manchas azuis e vermelhas.

e as cores davam as mãos
e cirandavam, confundindo
céu com terra e parando de ser cores
para ser algo mais... humano.

e minha garrafa de café
que costuma deixar os líquidos frios demais
hoje decidiu ser alguém mais decente
como eu... que decidi aceitar o café como ele é:
seja frio, seja ruim, seja vendido, seja... café.
entre: você não quer uma xícara de chá?

a gente pode dançar uma dança mórbida
e amarela. não seria um cemitério
mas seria poético e contraditório
mesmo assim.
se quiser, a gente pode dançar de outro jeito
meu amor
(isso é uma carta de amor)

eram enfeites adornando a mesa
em alguma ordem que faria algum sentido para mim
se eu não fosse eu.
era como ser deus por seis dias, mas sem
o peso da responsabilidade.
só sendo maior que tudo isso.

mas eu já estou saindo da minha linha...
não era isso que eu pretendia!
(isso é uma carta de amor)

então olhe para todas essas anotações
feitas em algum caderno em 1954
o engraçado é que elas ainda fazem sentido
às onze da manhã de uma quinta-feira engraçada
e sonolenta.

entre: talvez você possa se secar dessa chuva
que veio do passado. talvez eu tenha
aquelas pílulas engraçadas que tem gosto ruim
e talvez eu previna sua gripe.

um cigarro, também, porque aquece
por dentro. e meus versos pulando linhas,
claro, que já são de praxe.

eu tenho também um arco-íris
de formas engraçadas
como aquelas manchas
que quando você olha para a luz, aparecem.
e que alguma professora de ciências há de ter me dito o nome...
mas eu esqueci.

entre: tem um som velho tocando
pop antigo. e a música se espalha
na mesma sintonia de quem
passa manteiga num pão
quando se está atrasado para o trabalho.

ah, e o que é trabalho? além
de uma coisa inventada para modificar
o ser humano que humaniza
o que não deve ser humanizado!
mas que frágil é essa humanidade,
que é escolhida ao invés da liberdade torta
de ser selvagem.

bom, voltemos às cores, já que você
me faz divagar assim...
há corvos gordos grasnando
e patos miando.
como se fosse assim que as coisas funcionam.
tudo meio fora de lugar, mas entre:
a gente dá um jeito, vamos dançar
no meio da bagunça.

entre: até o chão e doce como pirulitos
daqueles bem vermelhos mesmo.
e aproveite, que hoje eu acordei
querendo ser Sylvia Plath.
(e isso há de ser uma carta de amor)
Sobre três noites seguidas sem dormir
se eu fechar os olhos, arde.
arde
como se fosse sono.

e faz frio
aqui no meu casulo
feito de cobertores
onde eu me escondo
como se os fantasmas (em quem eu não acredito)
fossem ter medo
de um pouco de pano.

e vou ditando
pausadamente
a minha morte, detalhando
os dias e horas e minutos e segundos e dores e
eu nem sei mais o que
estou fazendo aqui
falando
assim
pausado

fazendo
assim
versos
como se um verso fosse apenas uma coisa que a gente faz
e não uma coisa que a gente nasce.

e arde tanto
que eu quero ficar de olhos fechados para sempre
mas está tão escuro
que preciso vigiar as sombras
porque elas podem me engolir

eu, que sou tão errada
e pequena
e tão medrosa
frágil
e sombria...

(vou lá eu ter medo de sombras? ah, ironicamente, sim.)

então eu fecho os olhos
e rezo
para o deus de mim mesmo (eu)
conseguir dormir.

com os anjos ou com as aranhas.
A primeira (de muitas) vitória
Ela era bonita. Era, mesmo, bonita: não eram só meus olhos (de mãe) que a esculpiam assim, e sim a opinião unânime de todos para quem a apresentei que entendessem que ela não era mais só um rostinho com um sorriso.  (Ufa, que sentença longa). E, falando em lábios, ela brincava com os sorrisos, fazendo acrobacias...  Toda manhosa, esticando os braços e pernas. Bem felina, bem ferina. Talvez não felina o bastante para miar nem ferina o suficiente para que machucasse, mas decerto era uma mistura dessas duas palavras cheias de suco. Acendia um cigarro nem-tão-forte e brincava com ele, talvez o mastigasse um pouco, deixando-o ―quase sempre ― molhado. Gostava de café, também, apesar de não gostar da fama que adquiria por isso. Melava as luas com açúcar, sorria e me dizia que gostava desse jeito, nem tão doce, nem tão amargo: balanceado.

Escutava David Bowie e The Killers porque sente que de algum modo deve ouvir isso. Gosta de uns bons riffs na guitarra, mas solos de piano a traduzem de modo incomparável. Vai ver ela nasceu antitética... Ou talvez seja só assim que ela complete a si mesma. Acho que ela tem medo de que a vida dela se torne uma bola de neve que a engula. Deve ter medo de ser uma bola de neve e engolir os outros, também.  

Mastigou-me uns segundos, algumas vezes, mas sempre me cuspiu para fora e sorriu depois. Nunca engoliu. Quiçá é assim que ela demonstra afeto, mastigando as pessoas e pedindo desculpas com um cigarro e um abraço apertado depois. Não tenho muita certeza. Eu não a conheço como eu gostaria de conhecer, embora eu pertença a ela como uma febre que queima mais que o Sol.

Já teve a pele queimada de Sol, já foi pálida, já foi ruiva e loira. Depende do jeito que você olha para ela. Para mim é como um caleidoscópio, muda em questão de segundos e não há nem tempo de admirar todas suas faces.

Ela era bonita, ou talvez ainda seja. 

Ô, Ana (Um parágrafo só melado com não-sei-o-que)...
Ô, Ana, como quero nos ver bonitas… É que nunca me cansei de sentir e de lembrar dessas ondas que caminham do mar. É que eu achei que você falava sério quando disse que comigo era diferente e que eu não ia te perder… O erro foi meu em acreditar? E é só você ficar mais séria que eu já me encho de tensão…Lembra dos nossos planos, lembra dos nossos risos? Eu sei que amor e dor andam de mãos dadas. Mas eu e você, eu e você seríamos diferentes, pequena… E como num devaneio, te imaginei minha. Você era minha! Ah, Ana, você era tão minha e agora é tão vaga quanto uma nuvem de algodão doce sem sabor. E eu fico brincando assim com seu nome, dissolvendo nossas mágoas na minha língua. Ô, Ana, por que você teve que ir embora? E eu aqui, com o meu chá, mas meu chá não é você… Você poderia ser um gole de chá, de tão quente e bonita e aconchegante. Poxa, Ana… Eu te amo, você não vê? Ai, Ana, tape meus olhos e me faça esquecer de você e do seu hálito quente… E como é, Ana, me ver aqui sofrendo por você? A vida é cruel, pequena, mas o que você fez comigo é mais ainda. Será que você gosta mesmo-mesmo de mim? Porque eu já nem sei mais. Eu? Eu nem sei. Eu nem existo.
Reflexões sobre loucura com gosto de infância
Uma ilustre e bela desconhecida
de  voz sussurrada e açucarada
e cabelos pendurados na vida
Voando com leveza aguçada

Essa bela moça andou até mim
Atravessando devagar a sala
E sorriu. O ato, puro assim
Tinha cheiro, cor e gosto de bala...

Pra ser exata, sabor de morango.
E ah, mas tinha a mais doce das vozes...
Findava e recomeçava, em losango
Como um rio corrente com várias fozes.

“Você é mesmo doida!”, ela disse
apertando sua língua entre os dentes.
E, ah, o nosso futuro, se existisse,
seria repleto de de repentes.

Mas, desconhecida, vazio ou cheio,
seria belo, cheio de luar.
Então se esqueça desse seu receio
e vem, pequena, comigo bailar.

E mesmo que você, talvez, não goste
dessa coisa esquisita que é a dança.
Só, por favor, em meus lábios encoste,
nesse lugar onde o tempo não avança.

E, ah, minha menina da voz pura...
Vê se me guarda, em algum lugar
bom, arejado ou cheio de candura
onde, eu prometo, eu vou ficar.
Uma coleção de imagens sobre imagens (sobre um cômodo)
o quadro torto, um pouco pra esquerda
as pétalas de alfazema caindo...
e o cheiro infernal que é o da imundice
contaminando aos poucos todo o local
a vida desaparecendo através das cortinas
e, meu amor, que bonitas cortinas!
essas que sustentam a verdade
da morte
ou da vida
separando...
o cheiro de alfazema do cheiro de poeira.

nomes traduzidos de diversos dialetos
a poesia ardente, queimando a ponta da língua
fazendo todo mundo se lamentar
“ah, que bonito poeta ele teria sido
se não decidisse
ser jardineiro
ou qualquer coisa que o valha”.

mas como poderia ele ter sido mais que jardineiro
cortando a raiz das palavras
e aguando as simbologias
todo poeta
é um engenheiro
um professor, quem sabe
um arquiteto
que abre os caminhos
que entra em transe e começa a cuspir as palavras como se fossem meras
sementes
de
melancia.

e de repente
se tem assim
oh, mundo
nasceu um poeta hoje à noite...

o quadro exibindo uma paisagem bonita
um pouco inclinado pra esquerda.
e o som de música calma
música que diz que não existe uma amante mais bonita que a minha...
ah, essas canções bobas e românticas
um dia hão de ser complexas
como o mecanismo humano
como uma flor que resolveu não desabrochar
sendo
pra sempre
uma quase-quase-quase-flor...
sem cheiro
de alfazema
dessa vez.

e esse não é um poema razoável
mas mesmo assim foi cuspido
às pressas
por alguém que nem mesmo
sabe seu próprio nome...

e as manchas nas roupas no armário
livres por si só
dançantes
como ácaros que decidem morar em mim...
oh, eu
oh, mundo

e livros dedicados
sem autógrafos
com marcadores de página caindo
de dentro deles...
pequenos livros
grandiosos
como ilustrações infantis.

a cama desarrumada
a caneta caída no chão
a janela escancarada
pronta pra uma fuga
do décimo andar.

a porta trancada...
os sonhos trancados juntos.
sem poder sair
daquele lugar
com flores mortas
e vidas vivas...

o tabaco dilacerado
como a maconha
em cima da cômoda
e
o quadro torto
um pouco pra esquerda
ou, vai ver, a vida que tá inclinada demais pra direita.